Nos últimos anos, a equipe da ACRUX esteve exclusivamente imersa no programa VLPP. Cada etapa desse projeto refletiu nosso sonho e compromisso técnico com o Brasil. Nossa trajetória com lançadores responsivos e de baixo custo vem de longa data, desde o início do projeto Montenegro em 2010, inspirado no legado do VSB30.
Com o edital FINEP 17/2022, unimos forças com as startups BRENG e EMSISTI para estruturar o Montenegro MKI para esse edital. Pela escala financeira do projeto — próximo a R$ 200 milhões — a submissão do projeto exigia uma empresa de maior porte financeiro para liderar o arranjo institucional. Assim, a AKAER foi abordada para assumir a liderança do arranjo como executora principal. Após aprovação criteriosa da AEB e FINEP, o contrato foi assinado em novembro de 2023.
Desafios de Governança e Operação
Após a assinatura, iniciou-se um longo período de tratativas sobre o instrumento jurídico de repasse às coexecutoras. Priorizando a urgência do cronograma e a manutenção do projeto, a ACRUX anuiu a um modelo de governança proposto pela executora principal que centralizava a gestão financeira dos recursos.
Iniciamos as contratações com a urgência que o desafio exigia. No entanto, o fluxo de repasses estabelecido pela liderança do arranjo apresentou descontinuidades e atrasos frequentes. Esse cenário desafiador gerou impactos diretos: multas, extensão de prazos com fornecedores e dificuldades na motivação e retenção de talentos essenciais.
Mesmo diante dessas limitações, as equipes técnicas das quatro empresas demonstraram grande competência e compromisso, consolidando o veículo como uma alternativa viável, acessível e compatível com o cronograma de voo original, inclusive em eventos de revisão técnica por pares.
O Desfecho do Projeto
Em março de 2025, em reunião extraordinária com os representantes do arranjo, a FINEP identificou desconformidades na gestão dos recursos sob responsabilidade exclusiva da executora principal.
Diante do risco ao projeto, as coexecutoras (ACRUX, BRENG e EMSISTI) agiram proativamente, buscando investidores externos e oferecendo inclusive garantias próprias para sanar as lacunas e garantir a continuidade do sonho de um microlançador brasileiro responsivo. Contudo, sem o consenso de todas as empresas do arranjo para uma reestruturação, a FINEP, no exercício de suas prerrogativas de fiscalização, não teve alternativa se não pelo encerramento do contrato.
O Legado Técnico e o Futuro
Apesar da interrupção do contrato, a ACRUX sai deste processo com avanços tecnológicos sem precedentes em sua caminhada de 17 anos no mercado. O conhecimento e os meios construídos ao longo desse projeto permanecem como um patrimônio do Brasil, e a disposição da Defesa e do Programa Espacial Brasileiro. Nossos principais marcos entre 2024 e 2025 incluem:
- Capital Humano: Fomento de mais de 40 profissionais (CLT e bolsistas FINEP/CNPq) altamente qualificados.
- Infraestrutura: Consolidação de base fabril metal-mecânica em Osasco/SP e infraestrutura de pesquisa em tecnologia de foguetes no campus da UFMA em São Luis/MA.
- Propelentes: Fabricação em escala laboratorial de resina de PBLH 100% nacional e propelente compósito avançado, com ensaios de motores de pequeno porte. Projeto detalhado de planta de produção de PBLH (até 25 ton/ano), masseração e carregamento de propelente e ensaios estáticos de motores de até 15 ton.
- Capacidade Computacional: Implementação dos softwares mais avançados de balística, modelagem CAD e ferramentas de simulação de fluídos/compósitos.
- Propulsores Espaciais: Testes bem-sucedidos de motores bipropelente com "propelentes verdes", propulsor a gás frio/quente e novas formulações de propelente sólido avançado.
- Novos propulsores para Espaço e Defesa: Projeto detalhado de propulsor baseado no S30 em fibra de carbono (900kg de APCP), e propulsor de apogeu (300kg de APCP) com eficiência estrutural prevista de 92%.
- Produção de Documentação de Projeto: Mais de 500 laudas de documentação técnica submetida a FINEP, revisada e com aprovação técnica por comissão técnica da AEB, consolidados nos seguintes relatórios internos:
· B1.4-ARX-COP-002-2024-25-jun-B1.4-CalhaEstagio3
· B1.4-ARX-COP-001-2024-20-jun-B1.4-CalhaEstagios1e2
· B1.6-B2.6-ARX-COMP-003-2025-30-jul-RelatorioDificuldadesFinanceiras
· B1.6-B2.6-ARX-PRP-002-2025-04-mar-QueimaErosiva
· B1.6-B2.6-ARX-PRP-003-2024-18-dez-B1.6-B2.6-ProjPropSubsisS30S18
· B2.4-B3.1-ARX-COP-004-2024-26-jul-B2.4-B3.1-AnEstrBobinEnvelopes
· B2.5-ARX-PRP-001-2024-28-jun-B2.5-RedePirotecnica
· B3.2-ARX-COP-003-2024-22.jul-B3.2-BCA-TanqueProp
· B3.4-B3.14-ARX-PRP-002-2024-29-nov-B3.4-B3
· B3.5-ARX-COP-001-2024-21-out-B3.5-ConeAcoplador
· B3.6-ARX-AES-001-2024-25-nov-B3.6-Coifa
· B4.1-ARX-QUI-002-2024-30-out-B4.1-ProjPlantaPiloto50kg
· B4.2-ARX-QUI-001-2024-28-out-B4.2-ProjMassProp250kg
· B4.3-ARX-COMP-003-2025-30-jul-RelatorioDificuldadesFinanceiras
· C1.2-ARX-SIS-001-2025-28-fev-C1.2-Manufatura-Ensaios-ModEng
- Desenvolvimento de Equipamentos: Diversos equipamentos e dispositivos de ensaios e produção foram desenvolvidos ao longo do projeto, dotando a empresa de capacidade rápida de prototipação e fabricação de novos propulsores sólidos e líquidos.
Conclusão
Entre 2022 e 2025 vislumbramos diariamente a contagem regressiva e a ignição desse Veículo Lançador 100% nacional, partindo de solo nacional, no entanto, infelizmente dificuldades não-técnicas alheias ao nosso controle nos superaram.
A experiência adquirida e os ativos tecnológicos desenvolvidos nos dão a certeza de que o acesso soberano do Brasil ao espaço não está distante, e continuamos na torcida pelo VLM-AT e ML-BR. Seguimos trabalhando resilientes, com transparência e dedicação, pela Defesa e o Programa Espacial Brasileiro. Agradecemos todo o apoio do MCTI, FINEP e AEB, além de nossos diversos parceiros acadêmicos, comerciais e entusiastas do setor.
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