* Por Luciano
Marchetti
Com a crescente quantidade de drones cruzando nossos céus, uma nova e complexa camada de desafios se impõe à segurança pública, privada e à defesa do nosso país.
Se antes as ameaças eram mais "tradicionais", hoje precisamos abrir os olhos para os riscos que essas aeronaves não tripuladas trazem, desde um uso descuidado até, infelizmente, intenções bem mais perigosas.
Nesse contexto, investir e aplicar
tecnologias e soluções para conter drones deixa de ser uma opção e se torna uma
necessidade urgente.
Um dos primeiros obstáculos
que encontramos está na própria "essência" de muitos drones que vemos
por aí. Muitos modelos comerciais utilizam sistemas de comunicação com
protocolos fechados, o que dificulta bastante a tarefa de identificar e
rastrear esses equipamentos usando as técnicas que já conhecemos para
decodificar sinais. Essa barreira nos força a buscar métodos mais inteligentes,
que combinem a análise desses protocolos com outras técnicas, como a
goniometria de radiofrequência. Imagine poder localizar a "direção"
de onde o sinal do drone está vindo e, com uma "inteligência" que
reconhece os padrões típicos desses sinais, ter uma visão muito mais clara do
que está acontecendo no nosso espaço aéreo. Essa capacidade nos oferece uma
camada fundamental de "estar ciente da situação".
A ameaça se torna ainda mais
complexa com o aumento da popularidade de drones montados em casa ou
modificados. A facilidade de adquirir kits e a possibilidade de customização,
incluindo a alteração das frequências de operação do datalink,
representam um sério desafio para os sistemas antidrone convencionais, que, a
priori, deveriam se limitar às faixas regulamentadas. A capacidade de ajustar
livremente a telemetria torna esses drones praticamente invisíveis para a
maioria das soluções existentes no mercado. Nesse contexto, sistemas antidrone
que realizam uma varredura contínua do espectro eletromagnético emergem como
ferramentas indispensáveis, capazes de detectar sinais em uma ampla gama de
frequências e distinguir emissões de drones de outros sinais de menor
interesse. A crescente sofisticação de criminosos, com potencial acesso a esse
tipo de conhecimento, e até mesmo o uso inadvertido por entusiastas, reforçam a
urgência dessa capacidade de varredura espectral abrangente.
Outra preocupação crescente é
o uso de jammers por facções criminosas. A apreensão desses "fuzis
jammer" pelas forças policiais demonstra uma evolução nas táticas de
atuação, onde a capacidade de bloquear sinais se torna uma ferramenta para
atividades ilícitas. Isso impõe aos sistemas antidrone a necessidade de não
apenas detectar e localizar drones, mas também identificar a presença e a
origem de sinais de jamming. Essa funcionalidade, inerente a equipamentos com
capacidade de Medidas de Apoio à Guerra Eletrônica (MAGE), que realizam
varredura do espectro, incluindo a faixa de GNSS, e demodulam diversos tipos de
sinais, passou a ser vital para uma proteção eficaz.
A evolução tecnológica dos
drones também se manifesta na sua capacidade de utilizar redes celulares 3G/4G/5G
para vôos além da linha de visada. O surgimento de módulos de conexão à rede
móvel e a oferta de serviços de conectividade para drones por operadoras de
telefonia exigem que os sistemas C-UAS expandam suas capacidades de detecção
para incluir comunicações de rede móvel. A integração de demoduladores
específicos e a utilização de goniometria para localizar e rastrear drones
operando nessas redes são funcionalidades cruciais para manter a segurança.
Não podemos ignorar, ainda, a
ameaça representada por drones militares, que possuem datalinks com
larguras de banda significativamente maiores que os modelos comerciais. A
experiência em conflitos recentes demonstra o uso de drones com bandas de
transmissão amplas. Sistemas antidrone robustos precisam ser capazes de lidar
com essas larguras de banda, utilizando analisadores de espectro com grandes
bandas instantâneas.
Outra questão é a recente
mudança na política de "No-Fly Zone" de um dos principais fabricantes
de drones, transferindo a decisão de voar em áreas restritas para o piloto, o
que introduz uma nova dinâmica. Embora inicialmente válida para alguns países,
a tendência de isentar o fabricante de responsabilidades pode levar à sua
extensão para outros. Independentemente dessas políticas, a busca por drones
não afetados por essas restrições, incluindo modelos caseiros e modificados,
reforça a necessidade de soluções de detecção independentes das limitações de geofencing.
A chegada a alguns países de
equipamentos de monitoração e contenção de drones utilizados nos conflitos
atuais, por meios ilegais, eleva ainda mais o nível de alerta. A familiaridade das
organizações criminosas com essas tecnologias e suas capacidades exige que os
sistemas de defesa adotados considerem essa nova realidade, buscando soluções
comprovadamente eficazes em cenários de alta complexidade.
Além da detecção e
localização, capacidades adicionais, como a demodulação de sinais de vídeo,
presentes em sistemas avançados, oferecem informações valiosas, como a
visualização em tempo real do que a câmera do drone capta, podendo revelar
detalhes sobre o operador, a área de decolagem e os objetivos do voo.
A integração de diferentes sensores,
permitindo várias camadas de proteção é fundamental. Em cenários onde drones
operam em voos autônomos, sem depender de controle remoto e, portanto, sem
emissão de sinais de rádio detectáveis, a utilização de radares projetados
especificamente para detecção de drones, permitindo baixos índices de alarmes
falsos, torna-se uma camada adicional de segurança indispensável.
Outros sensores a serem
considerados são os optrônicos, especialmente aqueles com capacidade de imagem
térmica. Eles complementam os sistemas de detecção eletrônica, permitindo a
verificação da carga útil do drone e a validação das informações transmitidas
pelo datalink. A capacidade de identificar visualmente drones
modificados, como demonstrado em eventos de grande porte, reforça a importância
dessa camada de verificação.
Finalmente, a capacidade de
bloquear sinais de drones de forma eficaz e seletiva é um componente crucial
das soluções de contenção. Bloqueadores com ampla cobertura de frequência, alta
potência de saída e capacidade de programação flexível oferecem a capacidade de
neutralizar ameaças em um raio considerável, adaptando-se a diferentes cenários
e tipos de drones, sejam eles comerciais ou militares.
Em suma, a proteção contra a
crescente ameaça dos drones exige uma abordagem multifacetada e a adoção de
tecnologias avançadas de detecção, localização e contenção. A capacidade de
lidar com protocolos fechados, drones modificados, sinais de jamming,
comunicações de rede móvel, amplas larguras de banda e voos autônomos é
essencial para garantir a segurança pública, a proteção de infraestruturas
críticas e a defesa nacional. Ignorar essa realidade é colocar em risco a
segurança de nossa sociedade.
* Luciano Marchetti,
vice-presidente de vendas do Grupo Arsitec



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