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| Júlio Shidara, presidente da Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB) |
“Todo equipamento feito no exterior tem backdoor... Eles podem ser desabilitados”.
Com essa contundente afirmação de Alok Shankar Pandey, Júlio Shidara, presidente da Associação das Indústrias Aeroespaciais do Brasil (AIAB), iniciou sua apresentação “Soberania Nacional x Ameaça de Kill Switches em Sistemas Estrangeiros”, no XXVIII SIGE - Simpósio de Aplicações Operacionais em Áreas de Defesa, realizado no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), de 29 de setembro a 1o de outubro deste ano.
Pandey é coronel veterano do Exército indiano, especialista em Telecomunicações e Tecnologia da Informação (TI). Serviu por muitos anos no Corps of Signals, unidade de suporte ao combate daquela Força, responsável por comunicações seguras, TI, cibersegurança e guerra eletrônica e que constitui a espinha dorsal da Segurança Nacional da Índia.
Negação de uso e cerceamento de informações que afetam a Segurança Nacional não são acontecimentos nem incomuns nem recentes.
Após quase 40 anos da Guerra das Malvinas, ocorrida em 1982, oficiais franceses admitiram que o míssil Exocet, utilizado pela Argentina contra embarcações britânicas, possuíam kill switch, para evitar que esse armamento fosse empregado contra embarcações francesas.
O artigo “PNT, Sovereignty, & BeiDou Genesis” relata que, em 1996, os Estados Unidos negaram o acesso da China ao Global Positioning System (GPS) durante o conflito que ficou conhecido como a Terceira Crise do Estreito de Taiwan. Esse evento ficou conhecido como o “dia da humilhação inesquecível” e representou a gênese do Beidou (Global Navigation Satellite System - GNSS chinês) e da atual multibilionária indústria espacial chinesa.
Três anos depois, em 1999, foi a vez da Índia sofrer a negação de acesso ao GPS durante a Guerra de Kargil, contra o Paquistão. Foi um “basta” da Índia para a dependência estrangeira e o início dos esforços para a implementação de seu próprio sistema de navegação regional, conhecido como NavIC. Esse não foi um caso isolado. Em 2024, duas ocorrências envolvendo drones produzidos na Índia, mas com emprego de componentes críticos chineses, reforçou a preocupação do governo indiano com relação à dependência de equipamentos e componentes estrangeiros. Numa das ocorrências, não foi possível fazer os drones decolarem e, na outra, o controle de drones foi tomado na fronteira com o Paquistão e os mesmos foram desviados para fora da Índia.
Muitos brasileiros não têm conhecimento e ficam surpresos ao saber que o Brasil também já sofreu negação de acesso ao GPS. Aconteceu em 1997 e também em 1999, no primeiro e no segundo lançamentos do Veículo Lançador de Satélites (VLS) do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), no Maranhão, conforme relatou recentemente o Prof. Waldemar de Castro Leite Filho, no artigo “Quem mexeu no meu queijo?” - publicado em seu blog. Mais recentemente, em 2024, foram levantados questionamentos sobre a vulnerabilidade decorrente do emprego do Starlink pelas Forças Armadas Brasileiras em missões de segurança nacional.
“Ainda que um equipamento estrangeiro possa funcionar por décadas em operações realizadas pelas Forças Armadas Brasileiras, seja em operações conjuntas nacionais ou em operações combinadas com outros países, sem qualquer evidência de interferência externa (pelo emprego de mecanismos como kill switches ou backdoors), isso não representa garantia de que funcionarão da mesma forma numa eventual guerra”, alerta o presidente da AIAB.
O artigo intitulado “A Strategic Framework for Mitigating Electronic Hardware-Related National Security Risks in India”, afirma que um único microchip comprometido, uma atualização maliciosa de firmware ou um backdoor implementado num equipamento de rede apropriado pode comprometer totalmente a integridade de uma infraestrutura crítica nacional.
A primeira comprovação real de existência de backdoor ocorreu em 2012, e envolveu um FPGA (Field-Programmable Gate Array), que é um chip programável chinês de grau militar. Pesquisadores da Universidade de Cambridge descobriram um backdoor gravado no próprio silício do FPGA, que permitiria que terceiros pudessem acessar o controle de armas e de plantas nucleares.
A Bloomberg reportou, em 2024, que a fabricante holandesa de máquina EUV (Extreme Ultraviolet lithography), necessária para produzir os mais modernos chips existentes, ASML incorporou kill switch em equipamento vendido para a fabricante de chips taiwanesa TSMC, para desabilitar a máquina caso a China invadisse Taiwan.
Mais recentemente, circularam notícias de que sistemas de defesa da Europa poderiam sofrer as consequências do acionamento de kill switches em equipamentos fornecidos pelos Estados Unidos.
Com relação a esse tema, um dos artigos mais contundentes sobre a ameaça de kill switches para a Europa foi publicado pelo fundador do Global4Cast em 2025. Nele, Ingo Piepers afirma que o sistema de mísseis HIMARS (High Mobility Artillery Rocket System) foi fornecido pelos Estados Unidos para a Ucrânia deliberadamente com desempenho degradado. Dentre outros equipamentos críticos com mecanismos de controle incorporados e que poderiam ser desabilitados numa crise, ele listou as aeronaves F-35 lightning II, F-16V Fighting Falcon, o sistema de mísseis Patriot, o tanque M1A2 Abrams, o míssil de cruzeiro Tomahawk, o sistema de navegação GPS e a rede tática Link 16.
No artigo The Programmable Diplomatic Kill Switch, o professor da Universidade Americana da Armênia, David Davidian, afirma que: “Os principais fabricantes de armas estratégicas seriam negligentes se não acrescentassem tal capacidade de controlar o uso de seus armamentos”, referindo-se a kill switches e backdoors.
Portanto, embora o Brasil possa não ter sofrido ainda as consequências do acionamento de kill switches ou backdoors, isso não significa que tais dispositivos não estejam presentes em equipamentos estrangeiros empregados pelas Forças Armadas e em infraestruturas nacionais críticas.
Nesse cenário, a pergunta óbvia é como o Brasil poderia mitigar tal vulnerabilidade.
A resposta é simples: priorizando o desenvolvimento endógeno de tecnologias críticas de interesse nacional, para buscar a autonomia tecnológica em áreas estratégicas para o País. Para que isso aconteça, primeiro de tudo, faz-se necessário que os tomadores de decisão não encarem a ameaça de kill switches como teoria da conspiração, mas tenham real consciência da vulnerabilidade decorrente de dependência de tecnologia estrangeira em áreas críticas para a soberania nacional.
Tal conscientização representa a fundação sobre a qual deve ser construída a vontade política para implementar uma política industrial de Estado de fato que, em poucas décadas, pode alterar drasticamente o quadro atual de dependência de tecnologia estrangeira no Brasil, como faz a Índia com sua política Aatmanirbharta, ou política de autossuficiência.
O Brasil precisa seguir pelo mesmo caminho, conclui Julio Shidara.

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